14/09/2011 às 10h44m
César aprendera a amar o Manto desde muito pequeno. Teve a felicidade de nascer em 1971, dez anos antes do pleno domínio que levou o Flamengo a dominar o mundo de forma incontestável no início da década de 80.
Na inocência de sua infância, achava estranho naquela época que alguns seres humanos adultos, e até mesmo outros tão pueris quanto ele, torcessem por outro time. Quando se encaminhava para o estádio, de braço dado com seu orgulhoso pai rubro-negro, de quem herdara a adoração pelo manto, observava curioso os poucos que passavam trajando as camisas dos clubes adversários e pensava: "Caramba!! Não é tão óbvio que o Flamengo vai acabar vencendo? Por que essas pessoas insistem em torcer para outras equipes?"
O tempo passou, e o domínio já não era tão absoluto assim. Pelo menos no campo. Nas arquibancadas, continuava vendo os shows incomparáveis proporcionados pela Maior Torcida do Planeta. Já no campo, os tempos tinham mudado. Ainda torcia por um forte time, mas vez ou outra algumas equipes ousavam desafiar a hegemonia rubro-negra e vencer um campeonato aqui e outro acolá.
César, que passara a infância e adolescência acompanhando verdadeiros massacres contra os adversários, não conseguia se acostumar com aquilo. Tornou-se um adulto emburrado nesse seu lado de torcedor. Vociferava e rangia os dentes quando o resultado em campo não era uma vitória. Muitas vezes chegava a rosnar furioso quando o placar era favorável, mas por um magro um a zero, acostumado que estava em tempos idos, a ver goleadas memoráveis contra os mais diversos times.
Vivia remoendo reminiscências do passado, deixando até mesmo de curtir os bons momentos que, pelo menos do seu ponto de vista primário, não se comparavam às épicas vitórias do que convencionou chamar de "os tempos bons".
O tempo passou e César, como todo ser vivente do planeta, acabou por se adaptar. Não via muita graça, mas ainda assim era o seu time que estava em campo. As cores eram as mesmas. A camisa muito parecida, "é até mais bonita agora", admitia em segredo. A torcida então, vivia proporcionando tardes e noites que não ficavam devendo nada aos saudosos tempos de outrora.
Eis que em 2011 algo aconteceu. A diretoria se esforçou. Trouxe técnico de ponta, craques mundialmente reconhecidos, arrumou mesmo a casa e o time do coração de César começou a reinar absoluto naquele ano. Sua mente começou a fazer um volta deliciosa à infância passada. O tempo foi voando naquele fatídico ano e os resultados positivos apareciam aos borbotões. Até que, exagero de grandeza, o Flamengo ultrapassou a marca de 100 dias sem uma única derrota.
Aquilo fez muito bem ao coração de César. Voltou a olhar com curiosos olhos de menino para a arquibancada oposta, onde torcedores infelizes de outros times observavam estupefatos o renascimento de um Império que os incomodava muito. César só sabia bater palmas. Já com 40 anos, comportava-se nas arquibancadas ou diante do aparelho de TV como um garoto mal saído das fraldas. Aplaudia, urrava, batia no peito, beijava o escudo estampado no Manto Sagrado um sem fim de vezes a cada partida. Havia reencontrado uma felicidade que julgava não ver mais em sua vida...
Aí o Flamengo tropeçou. Perdera a invencibilidade diante do olhar incrédulo de César que nem vira os gols que causaram a derrota, já que em ambos os lances estava com a cabeça inclinada beijando a camisa.
Aí o Flamengo tropeçou de novo. E não uma vez só. Duas, quatro, uma sequência. Foi demais para César.
A tabela não mostrava situação muito dramática. A distância entre o Flamengo e o então líder era de pouco mais que meia dúzia de pontos. Espaço curto e facilmente eliminado com uma pequena sequência de vitórias. Era tarde. César não racionalizava mais nada. Acabou que os 100 dias fizeram mal ao "garoto". Queria o fim de tudo. Queria derrubar várias instâncias. Queria jogar violentos impropérios do porteiro do clube ao atacante. Julgava estar tudo errado. Urrava. Tratava sua camisa com desleixo, chegando até mesmo a dar um pequeno rasgo em um de seus momentos de fúria. Gemia seu sofrimento e já nem conseguia prestar atenção aos jogos e muito menos na tabela do campeonato.
César regredira. Já não era mais um torcedor. Havia se transformado em uma força destruidora da natureza. O desespero sem causa suplantara o amor. César era um monstro.
THE END
CURTAS
. Imprensa malvada. A folga de dois dias para os jogadores já tinha sido combinada a muito tempo, devido ao acúmulo de jogos e conseqüentes concentrações. Muitos jornais trataram isso de forma sensacionalista, tentando transformar em desleixo aparente. Malditos.
. Agora que eu quero ver todo aquele amor que a turma adora cantar aos quatro ventos. Clássico importante contra o Botafogo no domingo. Quem está reclamando de tudo, mora no Rio, e não vai ao jogo, perdeu direito de ficar torrando a paciência.
. Show do Ronaldinho logo mais trajando roupa amarela. O cara é tão sinistro que vai até me fazer assistir jogo do Brasil.
. Estou melhorando naquele troço lá do Cartola. Vamos ver se consigo não fazer muito feio na Liga dos Blogueiros que pretendo montar com os caras dos outros clubes no ano que vem.
. Mercioquerido@hotmail.com
. Twitter: @sorinmercio
Autor: Vida de Torcedor
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