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De olho no pódio: Heitor Carrulo

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“O Flamengo é a minha casa”. É assim que o rubro-negro Heitor Carrulo define o clube em que passou grande parte de sua vida. Aos 30 anos, o atleta de polo aquático foi criado nas piscinas da Gávea, passou por diferentes times e retornou ao seu time do coração para conquistar seus objetivos. O central quer completar a coleção de títulos nacionais pelo Mais Querido: falta o da categoria Sênior. Ele almeja ainda participar de seu primeiro Pan-Americano e está bem perto disso. Heitor compõe, hoje, o grupo de 20 atletas convocados para a Seleção Brasileira da modalidade. Até os Jogos de Lima, que terão início no fim de julho, nove nomes serão cortados e o rubro-negro briga para defender o país na principal competição do ano.

Um dos mais experientes da equipe do Flamengo, Heitor é um exemplo para os mais jovens e conhece a responsabilidade. Para ele, é seu papel cobrar dos “moleques”, mostrar o caminho certo, ser um espelho e um irmão mais velho. O polo aquático, segundo o atleta, é uma família.

Na série 'De Olho no Pódio', o site oficial do Flamengo conta as histórias de alguns dos principais atletas do clube e do Brasil, passando pela vida pessoal, carreira e, claro, o Mais Querido. Conheça um pouco mais daqueles que fazem os esportes olímpicos rubro-negros e brasileiros mais fortes.

O início no polo aquático
Comecei com 10 anos de idade. Hoje eu tenho 30, então são vinte anos no esporte. Entrei no esporte porque era uma criança gordinha e estava começando a ter problemas de hipertensão. Meu primo já fazia, então fui praticar, entrei na escolinha e comecei a gostar. Vi que eu era bom no que fazia e continuei até hoje. 

A carreira de Heitor
Comecei a jogar polo aquático no Botafogo. Meu técnico era o Solon Santos. Após dois anos, ele foi mandado embora e veio pra cá, então eu vim junto. Fiquei no Flamengo por seis, sete anos direto. A gente conseguiu ganhar todos os campeonatos de base possíveis com o meu técnico como mentor. Ele e o Paulinho Castro. Depois, fui para o Fluminense e aí fiquei dois anos parado, depois mais três no Paulistano até voltar para o Flamengo. Vou completar dois anos dessa volta. 

Dois anos de hiato
Eu desacreditei do esporte. Estava sendo cortado direto da Seleção. Como era moleque, não tinha a paciência que hoje tenho de saber que as coisas demoram, ainda mais no time adulto. Quando termina a equipe Júnior, você só pode pegar a adulta e tem muita gente boa. Eu não valorizava nem só ser chamado, queria estar dentro. Mas esse tempo parado me fez mudar a minha cabeça. Fui chamado para o Paulistano e fiquei três anos em São Paulo. Lá, mudei muito, amadureci por estar em uma cidade diferente, por ter outro técnico, outro esquema. Hoje vejo que a minha cabeça está muito melhor para suportar o treinamento, não ter pressa e deixar as coisas fluírem do jeito que são. Treinando forte, uma hora acontece.

Retorno ao Flamengo
Eu já ia voltar para o Rio, pois tive um contrato com o Paulistano de três anos e já estava acabando. Não que quisesse ficar, mas cumpri a minha palavra. Os caras queriam que eu ficasse mais e deixei as portas abertas lá porque é um grupo muito bom, sempre tento dar o meu melhor e nunca fechar as portas, dar o meu máximo de qualquer forma. Mas o Flamengo é a minha casa. Foi onde ganhei a maioria dos meus títulos, onde formei meu caráter com os meus técnicos. Tudo que tenho hoje, que me considero como homem e como pessoa eu devo a eles, que considero como pais. Estavam sempre na água, na piscina, me ensinando a ter caráter, me passando valores… Foram professores de verdade, não só treinadores. Não foram só aqueles caras de borda falando com você da água, isso e aquilo. Eles falam coisas da vida e sobre como se portar na sua vida como homem, como filho, pai, irmão, como qualquer coisa. Foram meus mestres, me passaram valores muito fortes e profundos que eu tento passar para os mais novos que estão ao meu lado.

Momento mais marcante no Flamengo
O mais marcante foi nosso terceiro lugar na Liga Nacional, na primeira, quando eu tinha 18 anos, antes de sair do clube. O time era composto só de moleques Sub-20 e tinham dois caras mais velhos. A gente conseguiu chegar na terceira colocação da liga principal com os outros times só com adultos. Esse foi um momento especial para mim porque foi uma conquista da galera da base do Flamengo, que foi criada aqui. Para mim, foi muito importante esse título. E agora eu almejo, por ser o cara mais velho do meu grupo, ser campeão adulto pelo Mais Querido junto com esses meninos daqui, que são da base, criados no clube.

Essa é a minha meta principal: ser campeão pelo Flamengo em um campeonato adulto. É o meu maior objetivo desde que cheguei aqui, porque joguei no adulto desde os meus 14, 16 anos, e chegávamos nas finais, mas sempre ficava em segundo. Nunca fui campeão adulto aqui e isso me faz falta. Fui campeão Infanto, Juvenil, Júnior, Sub-20, Sub-21… a gente ganhou tudo! E várias vezes. Mas no topo ainda não conseguimos chegar e falta isso pra mim. Até para honrar os caras que me ajudaram, eu quero esse título. 

Rotina 
Na segunda-feira, que é dia de academia, chego às 9h para malhar, vou para a água por volta de meio-dia, volto para casa, descanso, volto às 19h para o treino da noite e saio às 22h. No outro dia, no lugar da parte física, tem a faculdade (Heitor cursa Educação Física) de manhã e a parte da tarde é a mesma. Vou assim a semana toda.

Maiores dificuldades de um atleta de alto rendimento 
As incertezas. Acho que a maior dificuldade é essa, é nunca saber quando vai dar certo ou se vai dar certo. Você se empenha ao máximo e às vezes não dá. Pode ser uma lesão, se você não tem patrocínio, não tem uma ajuda… acho que o atleta de alto rendimento é amador quase, porque nos esportes olímpicos são poucos que têm o apoio total e em qualquer federação todo mundo sabe isso. Eu acho que é a incerteza porque se você não correr atrás de algo além do esporte, você pode se prejudicar muito e se frustrar.

Principais competições do ano
Pela Seleção, estou no grupo de 13 atletas que vão para o Mundial. Lá ainda vai ter mais um corte para o Pan, porque pela nova regra, tanto nas Olimpíadas quanto no Pan-Americano, serão apenas 11 atletas. Briguei para ficar entre os 13 e depois vou brigar para ficar entre os 11. Estas são as minhas metas para esse ano, além da Liga Nacional em dezembro.

Preparação para Mundial e Pan-Americano
Mudei muito a minha preparação pessoal, porque treino muito mais. Desde o ano passado, tento fazer o máximo de treinamento, aperfeiçoar minha natação e meu preparo físico, já que jogo internacional é muito mais difícil. Aqui no Brasil você tem poucas partidas e normalmente só começa a ganhar o ritmo no meio do campeonato. Quando vê, já está acabando. Contratei um preparador físico especial para mim para a parte de natação, que eu faço a mais. Sou o produto do meu trabalho, tenho que fazer isso, senão eu vou perder em qualquer coisa que eu faça. Ganhamos dos Estados Unidos no início do ano na Copa UANA, vencemos os dois principais adversários do Pan, que foram o Canadá na semifinal e os EUA na final. A esperança de ser campeão pan-americano é muito grande por conta disso. Vimos que dá para ganhar e estamos trabalhando para isso. Todo mundo com certeza está se empenhando muito mais nos treinos depois dessa vitória, a Seleção está investindo.

Depois do Brasil Open, vamos para os Estados Unidos e treinaremos lá por mais um semana, depois mais uma na Coréia, onde vai ser o Mundial. Depois do Mundial é o Pan-Americano e, ganhando o Pan, estamos dentro das Olimpíadas. É o caminho mais curto para os Jogos. Então estamos empenhados para esse campeonato.

Família e vida pessoal
Não sou casado e não tenho filhos ainda. Não tive essa benção de ter crianças ou uma esposa. Ainda (risos). Irmãos tenho bastante, são quatro. Divido um quarto com um moleque que treina comigo e me mudei para Copacabana para ficar mais perto do clube, poder treinar mais e não me cansar tanto. Eu morava em Ramos com os meus pais, aí era difícil. Não posso reclamar por que tem gente que faz um trecho muito maior, dorme muito menos, trabalha muito mais, recebe menos ainda e tem uma vida muito mais sofrida do que a minha. Faço o que eu gosto e venho aqui com o maior prazer, passo o dia no clube. É só que, para melhorar seu desempenho você tem que fazer alguma coisa, abrir mão de outras. Terminei um relacionamento de dez anos por conta disso. Estava no ápice da minha carreira e a pessoa ficava perguntando em qual momento eu ia parar. Falei que não sabia, você nunca sabe a hora que vai parar. Às vezes te param, né, mas você sempre acha que vai continuar. Abri mão disso e da comodidade de morar com os meus pais pelo meu sonho, apostando tudo. Por isso que falei que a incerteza é a pior parte. Você pode abrir mão de tudo e “está cortado, acabou, vida que segue e treina mais”. 

Ídolo no esporte
Ídolos tenho muitos. Primeiro são meus técnicos, como o Solon e o Paulinho de Castro. Tenho também atletas aqui que treinam comigo, como o Kiko Perrone, que é medalhista mundial, um monstro. Não tem como, você fica ao lado dele e é o cara que você vê na televisão. É meu ídolo e está ali do meu lado. Ele saiu daqui do Brasil, conseguiu ter um rendimento fora e hoje trabalha, tem seus filhos, teve essa transição. Esses caras que considero meus ídolos porque não foram só atletas, eles têm valores muito grandes. É um atleta, um pai, sabe equilibrar aquilo, sabe dar um exemplo para os mais novos.

É o que tento hoje, o que almejo ser daqui a uns anos. Agora sei que ainda não estou nesse patamar, mas vejo que posso chegar. Se você tem uma pessoa perto, tem que se espelhar nela. É o que tento mostrar para os moleques. Não só com palavras, mas com atitudes. Tudo que você faz, eles correspondem. Um menino novo, se você faz uma besteira, em dois dias ele está ali fazendo o mesmo. É o que eu falo… sempre carrego um livro comigo porque eu adoro ler. Paro e leio no meio deles. Aí me perguntam o que estou lendo. Falo que é bom para trabalhar sua mente, tem vários trechos, vários livros que mostram os caminhos para você se controlar, até de grandes atletas para você seguir o exemplo e tudo mais. São esses exemplos que a gente tenta dar, que esforço te leva a algum lugar. Fazer meia boca, você vai ficar mediano, não precisa fazer nada e vai ser medíocre. Ser medíocre é estar na média, fazer o que todo mundo faz, não precisa se esforçar. O cara que quer alguma coisa tem que fazer aquele algo a mais. Vai doer? Vai. Vai sofrer? Vai. Vai ter que abrir mão. Isso é escolha, por isso tem que saber se você quer aquilo. Não pode ficar na dúvida. Vai com tudo. E foi o que eu fiz, eu tomei uma decisão. É doído, é sofrido, mas tem que ser feito. 

Hobbies
Tomar café e ler livro, esse é meu hobby. E não é um café qualquer não, eu vou, escolho o café, o grão que vou moer, tenho várias máquinas diferentes para degustar um cafézinho e ler meu livro. Vários livros, de tudo quanto é coisa. 

Um livro que marcou sua vida
Primeiro a Bíblia, com certeza. Leio todos os dias. Tem certos trechos que não tem jeito, eu acredito que é Deus falando comigo sempre. Um outro livro é um que estou lendo agora e que já me marcou desde o início. O nome é “Caráter”. Fala totalmente disso, de como você vai influenciar a vida de outra pessoa, quais atitudes está tomando. Você é responsável sendo um exemplo para o outro. Fico cheio de medo, pois tem uma porção de moleque se espelhando em mim e em qualquer queda você pode mudar a vida de alguém. Então tem que tomar muito cuidado com o que faz e com o que fala. Se você for incoerente, eles vêem. Se você fala que vai treinar forte, tem que ser o primeiro a fazê-lo. Se fala de pontualidade, tem que ser o primeiro a estar na piscina. Eu sou o cara que chega meia hora antes do treino. Sempre. Para esperar os meninos, para eles me verem ali. Isso cria um hábito. Eles sabem que, se está atrasado, vai ter punição. Cobro deles todos, não importa. Daqui a pouco são eles ali no meu lugar e você cria um grupo que vai um levando o outro, é uma roda que não para. Era assim na minha época, os adultos que passavam o exemplo para a gente. É importante ter uma referência para seguir, alguém que te fala alguma coisa, te dá um toque.

Acompanha outro esporte além do seu?
Muito de leve. Quase não vejo televisão mais, acho perda de tempo. Só ligo para ver esporte mesmo. Basquete acho maneiro, NBA, etc. Futebol eu já não sei, mas Flamengo jogando são outros 500. Acompanho o clube e é diferente. Seleção? Não vejo, vejo jogo do Flamengo. Minha família toda é de rubro-negros, não tem ninguém de outro time. Não tenho uniforme porque eu dou tudo das temporadas passadas. Então assim, acompanhar é só o Flamengo mesmo. Não tem como, a gente vive aqui, convivo com atletas de outras modalidades, sabemos o que é ser Flamengo e ser atleta. Sabe o sofrimento que o cara passa diariamente para ter resultado. Como não vai torcer para uma pessoa dessas? Vivem a mesma realidade que você, são seus companheiros. Fui nos jogos de vôlei que pude ir, por exemplo. É uma família. Eu falo que o polo é uma “flamília”, são os mais velhos e os mais novos. Falo para eles: “sou o irmão mais velho de vocês, sou chato”. Tem que ser mesmo. 

Se não fosse atleta, seria…?
Professor com certeza. Ou militar.

O que faz no tempo livre?
Leio. Fico lendo, estudando. Tento aperfeiçoar meu intelecto. E saio também de vez em quando com os moleques, tento fazer alguma coisa fora daqui. Isso cria um vínculo importante, faz o time ficar unido. Aí sim a gente tem uma família de verdade. 

Ficha técnica
Nome: Heitor Carrulo
Idade: 30 anos
Altura: 1,81m
Naturalidade: Rio de Janeiro, RJ
Principais conquistas: Os títulos da Copa UANA e do Campeonato Sul-Americano pela Seleção Brasileira