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Mengo meu dengo - parte 10

Os Flanáticos da Nação e suas magníficas loucurasTexto de Luiz Helio

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Os Flanáticos da Nação e suas magníficas loucuras

texto de Luiz Helio

Capitulo I

No último sábado à noite estava em casa “concentrado” para ir conferir o show de Caetano Veloso. Mas ao invés de ouvir o último disco do cantor – o excelente “Cê” - para ficar com as canções ainda mais na ponta da língua e poder cantá-las ao vivo com o próprio Caetano, feito um guri ansioso que acaba de ganhar um brinquedo, preferi foi curtir logo um DVD que havia recebido de manhã pelos correios. Além de algumas gravações em VHS de jogos memoráveis do Mengo, tenho ainda dois vídeos da Era de Ouro do clube. E agora o acervo ficou ainda mais rico com o fantástico DVD “Heróis de uma Nação”, produzido em dezembro do ano passado durante as comemorações dos 25 anos do baile em cima do Liverpool que sacramentou a conquista do mundial em Tóquio.

Uma co-produção da Drei Marc e da Business Television, durante 52 minutos o vídeo nos leva a entender porque aquele mágico time jamais será esquecido. Narrado com a marcante voz do consagrado e veterano ator rubro-negro Milton Gonçalves, “Heróis de uma Nação” traz depoimentos emocionados dos ídolos do maior time da história do Flamengo. Quase todos estão lá. Raul, Leandro, Marinho, Rondineli, Júnior, Tita, Vitor, Peu, Lico, Nunes e Zico, incluindo artistas como Sandra de Sá, Ivo Meireles e Léo Jaime. Também jornalistas e radialistas, a exemplos de Roberto Assaf, Renato Maurício Prado, José Carlos Araújo, entre outros, relatam a emoção e a honra de terem sido testemunhas oculares daquela verdadeira seleção brasileira vestida em vermelho e preto. Igualmente aos apaixonados depoimentos dos heróis de 81, outras duas falas fazem a pele arrepiar e as lágrimas caírem. Ambas envolvem o jornalista-pesquisador Roberto Assaf. Na primeira, quando relembra o inesquecível Jorge Curi narrando uma jogada do Galinho, um gênio do meio de campo que antevia o lance antes mesmo de receber a bola: “lá vai o Zico. Escraviza a pelota!”, anunciava o magistral Curi. Na outra fala, é o colunista de O Globo e comentarista do programa Bem Amigos – apresentado por Galvão Bueno no SporTV - Renato Mauricio Prado, quem remete a um episódio em que o Assaf teria lhe perguntado: “Que dia é hoje?”, e ele prontamente respondido: “Aniversário do Zico, 03 de março!”. Não, retrucara Assaf. “Hoje é Natal. Dia em que nasceu o Messias, o Salvador do Flamengo”. Realmente é para se emocionar e deixar essas palavras ecoarem dos ouvidos ao coração. Depois, agradecer a Deus por integrar uma feliz nação repleta de heróis.

Muita gente pergunta porque o Flamengo ainda consegue arrebatar tanta paixão em torno das suas cores e do seu nome, mesmo em tempos de dificuldades. Quem faz essa pergunta não sabe (e não sente) o que significa essa magia que envolve o Mais Querido com os seus quase 40 milhões de fiéis seguidores. Já é lugar-comum dizer que o Flamengo só é grande por causa da torcida. Mas eu discordo, em parte. Ora, eis que o Mengo só tem essa imensa nação de torcedores, justamente por ser maior – em vários sentidos – do que todos os outros clubes brasileiros e mundiais. Tudo bem que se comparado, por exemplo, com o super milionário Barcelona e seus 134 mil sócios (provavelmente um recorde internacional), o rubro-negro carioca fica muito atrás. Somente em termos estruturais e financeiros (o que reflete dentro de campo), para deixar bem claro. Se tratarmos da centenária história, das conquistas, da dramaticidade que envolveu inúmeras glórias em todos os esportes e não apenas no futebol, da galeria de imortais heróis, dos espetáculos propiciados pela torcida no maior templo do futebol, aí sim, sem nenhuma sombra de dúvida, e deixando o ufanismo de lado, a referência passa a ser o Flamengo. Se algum outro time no mundo pode ser comparado ao time do povo, sob esses aspectos citados, esse único time só pode ser o Boca, o igualmente amado e popular clube da Argentina de Maradona.

Em razão da “magnética”, esta semana a coluna vai homenagear anônimos rubro-negros que fazem esse sentimento se perpetuar de geração a geração. Trabalhadores urbanos, agricultores, estudantes, donas de casa, enfim, pessoas comuns, brasileiros de fé que seguem duas religiões, a eclesial e uma outra que se chama Flamengo.

Um Cantinho do Urubu em Sergipe

O Cantinho do Urubu, um “Mengorial” em Sergipe\ Foto: arquivo/Arivaldo Luiz\

A aprazível cidade praiana de Aracajú tem uma legião de rubro-negros tão apaixonados pelo Mengo quanto qualquer carioca da zona sul ou dos morros. E um morador em questão se destaca por ser um dos mais flanáticos. Seu nome: Arivaldo Luiz (42), um paranaense radicado há mais de trinta anos na capital sergipana. Pai de Ingrid Moreira (17), ele é casado com a carioca Aparecida Moreira (41), “uma flamenguista original escolhida a dedo para tal compromisso”, como faz questão de frizar o Ari. Também não esquece de orgulhosamente afirmar: “como não poderia deixar de ser, temos uma filha flamenguista puro sangue como os pais”, revelando que a feliz “herdeira” segue a mesma religião.

A paixão musical pelo Mengo inspirada no Rei Zico\ Foto: arquivo/Arivaldo Luiz\

Ari trabalha como representante comercial com atuação em todo o estado de Sergipe e o nome da sua empresa é, sugestivamente, “Gávea Representações”. Brasileiro destemido e cheio de esperança, conseguiu realizar o sonho de construir a casa própria e nela fazer o “Mengorial” ou “Cantinho do Urubu”. Uma espécie de pequeno museu particular do Flamengo, com um impressionante acervo que vai de pôsteres e fotos a souvenirs dos mais variados tipos. E em destaque, uma galeria dedicada a Zico e o agradecimento ao seu descobridor Celso Garcia, externado em pintura na parede. Para ele, junto com a sua família, só existe o Flamengo no universo. “Sou torcedor apenas do Mengo. Não torço nem pela seleção brasileira”. Radicalismo? Ari diz que não. “Apenas o Flamengo ocupou todos os espaços possíveis do meu coração, da minha alma e da minha pele”, como podemos confirmar através das inúmeras tatuagens espalhadas pelo seu corpo eminentemente rubro-negro.

Arivaldo Luiz, um autêntico flanático da nação mais feliz do planeta e o seu “Cantinho do Urubu”, um ninho-doce-ninho rubro-negro.

Na próxima semana: Os Flanáticos da Nação e suas magníficas loucuras -capítulo II. SRN e até lá, se Deus quiser!