Como nascem os ídolos em bronze: a criação dos bustos de Arrascaeta e Bruno Henrique
Autor de outras homenagens históricas do Flamengo, o escultor Edu Santos revela como combinou tecnologia, trabalho artesanal e soluções surpreendentes para reproduzir os gestos e as características dos dois craques
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Os bustos de Arrascaeta e Bruno Henrique, que serão eternizados na sede da Gávea, carregam muito mais do que a imagem de dois grandes ídolos do Flamengo. Por trás das esculturas em bronze, há um trabalho que combina tecnologia de ponta, técnicas tradicionais de modelagem e a sensibilidade de um artista que já conhece bem a história rubro-negra.
As obras fazem parte da Nação Legado, plataforma criada pelo Flamengo para celebrar a história do clube e conectar diferentes gerações de rubro-negros. Sua primeira iniciativa é o Lance Histórico, jantar e leilão beneficente que será realizado no dia 30 de outubro, no Maracanã, e que une três compromissos: honrar o passado, apoiando ex-jogadores em situação de vulnerabilidade financeira; celebrar o presente, homenageando os ídolos da atualidade; e construir o futuro, investindo na infraestrutura das categorias de base e do futebol feminino, além de apoiar o projeto social Jogaremos Juntos.
Os bustos de Arrascaeta e Bruno Henrique representam a homenagem aos ídolos do presente e terão um papel central no leilão: 21 rubro-negros conquistarão o direito de eternizar seus nomes nos pedestais das esculturas.
O responsável pelas obras é o escultor Edu Santos, paulista de Piracicaba, especializado em retratos e seus trabalhos são de caráter figurativo clássico. Suas obras estão espalhadas pelo Brasil e também nos EUA, Itália, França, Holanda e Dinamarca. Seu nome já está presente em outras homenagens do clube: foi ele quem produziu os bustos dos campeões mundiais expostos na Gávea e a estátua de Zico.
Desta vez, o desafio foi reproduzir com fidelidade não apenas os rostos de Arrascaeta e Bruno Henrique, mas também os gestos e as características que os tornaram tão reconhecidos pela torcida.
Da tecnologia ao trabalho artesanal
A criação dos bustos começou com um processo de escaneamento tridimensional dos jogadores. Utilizando um equipamento de engenharia reversa, o escultor conseguiu captar com precisão as medidas e os volumes, gerando uma espécie de malha digital de cada atleta.
A partir dessas informações, foram produzidos modelos por impressão 3D, que serviram de base para a etapa seguinte: a modelagem manual em argila sintética. Foi nesse momento que a tecnologia deu lugar ao olhar e às mãos do artista, responsáveis por aperfeiçoar os detalhes, ajustar expressões e dar personalidade às esculturas.

Uma curiosidade é que as dimensões dos modelos precisaram ser ampliadas em 5%. O motivo é técnico: compensar o encolhimento que ocorre durante o processo de fundição em bronze.
As peças foram produzidas na Fundarte, uma das maiores fundições artísticas da América Latina, utilizando uma liga conhecida como Bronze 85, composta por 85% de cobre e 15% de estanho.
O desafio de eternizar um gesto
Edu decidiu começar pelo busto de Arrascaeta justamente por considerá-lo o mais complexo. A escultura reproduz um gesto marcante do uruguaio: o momento em que ele puxa a camisa para ressaltar o escudo do Flamengo.
A posição dos braços, projetados para a frente, exigiu uma solução especial. Em vez de fundir toda a obra de uma só vez, foi necessário produzir partes separadamente e depois uni-las.

Outro desafio foi reproduzir as tatuagens dos jogadores. Como o bronze não permite o mesmo tratamento visual da tinta sobre a pele, Edu precisou encontrar uma alternativa artística para preservar os desenhos.
“A tatuagem é tinta sobre a pele. No bronze, não é possível fundir e depois gravar por conta da perda de qualidade. Então, transformei a tatuagem em relevo. O que era desenho ficou em alto-relevo e as letras foram trabalhadas em baixo-relevo, explorando o contraste entre claro e escuro”, explica o escultor.
O resultado é um trabalho em que cada detalhe foi pensado para preservar a identidade dos atletas, mesmo com as particularidades e limitações do material.

Uma relação especial com a história do Flamengo
Embora já tenha realizado diversas obras para o clube, Edu guarda uma lembrança especialmente emocionante da criação da estátua de Zico.
“Toda obra leva um pedaço do artista, mas, de todas as obras que fiz para o Flamengo, acho que a estátua do Zico foi a que mais emocionou”, conta.
O escultor lembra que teve pouco tempo para concluir o trabalho e viveu momentos de tensão até receber a aprovação do próprio Galinho.
“Foi bem tenso até o Zico dizer que estava perfeito e brincar que tinha gostado de eu ter feito ele magrinho”, recorda.
Com ateliê em Piracicaba, Edu também assina trabalhos fora do universo esportivo. Entre suas produções mais recentes está uma homenagem ao cartunista Mauricio de Sousa, instalada no vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Uma homenagem para as próximas gerações
Assim como as esculturas dos campeões mundiais e a estátua de Zico, os bustos de Arrascaeta e Bruno Henrique passarão a integrar a galeria de ídolos da sede da Gávea, preservando para as próximas gerações a imagem de dois jogadores que marcaram uma era de conquistas com o Manto Sagrado.
Mais do que homenagear dois grandes nomes do presente, as novas esculturas reforçam um dos propósitos da Nação Legado: manter viva a história do Flamengo e fortalecer a ligação entre os ídolos de ontem, de hoje e de amanhã.
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