No Em Nome do Jogo, na FlamengoTV, os jornalistas Rodrigo Capelo e Rodrigo Mattos falam sobre o endividamento dos clubes brasileiros
Jornalistas defendem punição esportiva mais dura para clubes em recuperação judicial e veem times do país devendo mais do que arrecadam: "A bicicleta quebrou e eles estão a pé"
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Rodrigo Capelo, sócio-diretor do Sport Insider, e Rodrigo Mattos, colunista do Uol, acompanham há anos os bastidores administrativos e financeiros dos clubes brasileiros e o aumento da dívida. Segundo o relatório da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF) de 2025, os 20 clubes da Série A tiveram receita de R$ 14,3 bilhões em 2025, alta de 32% sobre 2024, e dívida acumulada de R$ 17,3 bilhões, 15% maior que no ano anterior.
"O futebol brasileiro está com mais dívida do que receita", resumiu Capelo, especialista em negócios, gestão e finanças do futebol, em conversa com Rodrigo Mattos, também reconhecido pelas suas pautas e apurações nos bastidores do futebol, no Em Nome do Jogo, programa da FlamengoTV, apresentado por Diego Pose.
Capelo lembrou que os números gerais escondem realidades distintas. O Flamengo aparece com R$ 950 milhões em dívidas, segundo balanço da ANRESF em 2025, mas tem registrado R$ 2 bilhões em receita. O Palmeiras tem R$ 1,3 bilhão em dívidas e receita de R$ 1,2 bilhão ou R$ 1,3 bilhão.
“Você tem uma dívida de 10.000 reais, 100.000 reais. Isso é muito ou é pouco? Depende. Depende de quanto você tem de salário, de quanto você paga nas suas contas mensais e quanto sobra para você poder pagar a sua dívida. O Flamengo, por exemplo, tem 950 milhões de reais em dívidas, só que teve 2 bilhões em receita. Se entra muito mais dinheiro do que você deve, você vai ter uma condição de pagar essa dívida muito mais confortável do que a de outros clubes”, salientou Capelo.

Rodrigo Mattos citou o Atlético-MG como exemplo de mudança de rota. O clube reduziu o endividamento bancário, que girava em torno de R$ 600 milhões e hoje está em cerca de R$ 100 milhões, depois de um forte aporte da família Menin.
“O Atlético teve muito dinheiro porque os investidores chegaram, mas priorizou gastar para melhorar o time de futebol. O plano feito pelos investidores não deu os resultados esperados. E o que eles estão fazendo agora? Estão revendo esse plano e buscando resolver a dívida antes de tentar crescer o clube. Para você ver como é complicada a gestão de futebol”, disse Mattos.

Sobre a recuperação judicial dos clubes devedores, Capelo explicou que o mecanismo suspende as cobranças por seis meses e permite negociar as dívidas com os credores, exceto com o governo. O jornalista citou a crítica feita pelo Flamengo ao fato de os clubes aproveitarem os meses de carência para contratar. “Pelo fair play financeiro, quem entra em recuperação só pode contratar por valor menor do que o clube recebe com vendas durante a janela de negociações, mas a regra vale apenas para quem entrou depois de abril.”
“Só acho que a restrição que está posta hoje para a recuperação judicial deveria ser mais dura, porque dá uma vantagem grande para o clube que é contemplado. O que a gente vê no exemplo lá fora é quem entra em recuperação perder pontos, eventualmente é rebaixado. Essa contrapartida está muito branda”, completou Mattos.

Capelo detalhou o movimento dos clubes por uma extensão de prazo no fair play financeiro. Segundo ele, o Santos coordena o pedido, com apoio de Botafogo, São Paulo e Corinthians nos bastidores. As regras proíbem dívidas novas desde 1º de janeiro de 2026 e dão prazo até novembro para resolver as anteriores.
“Os clubes fizeram as contas e perceberam que não têm como chegar a dezembro desse ano com a promessa cumprida, embora a regra tenha sido criada por eles no ano passado. Se a gente olhar para os últimos 20 anos, o futebol brasileiro dá dois passos para frente e um para trás. O futebol de 2026 é melhor do que era em 2015, que era melhor do que era em 2005. Daqui a cinco anos a gente pode estar num cenário muito melhor, mas vai exigir vigilância da nossa parte”, disse Capelo.
Assista ao episódio completo no YouTube da FlamengoTV:
Leia mais da conversa de Rodrigo Capelo e Rodrigo Mattos no Em Nome do Jogo
Como o futebol brasileiro gera cada vez mais receita e as dívidas só aumentam?
Rodrigo Capelo: "Os números são muito gerais, vamos ter muitas realidades diferentes dentro deles. Mas, de maneira geral, o que eles nos contam é que o futebol brasileiro está com mais dívida do que receita. Ele deve mais do que arrecada, então vai ter dificuldade para pagar."
Como explicar essa contradição?
Rodrigo Mattos: "Em vários momentos o futebol brasileiro teve aumentos de receita significativos, com contratos de TV e investimento de fora. Mas você nunca viu os clubes se estruturarem para aproveitar essa receita e ter um crescimento saudável. Teve também o boom das bets, que botou muito dinheiro nos clubes. Não importa muito a quantidade de receita que vai entrar se a casa não está organizada."
Até que ponto a dívida é administrável e quando ela preocupa de verdade?
Rodrigo Capelo: "O mais difícil é olhar só para esse número isoladamente. O Flamengo tem 950 milhões de reais em dívida, mas teve 2 bilhões em receita. Se entra muito mais dinheiro do que você deve, você tem uma condição de pagar muito mais confortável do que a de outros clubes. O Palmeiras, com 1,3 bilhão em dívida, teve receita de 1,2 ou 1,3 bilhão."
O que o Atlético-MG mostra sobre como o futebol brasileiro toca as coisas?
Rodrigo Mattos: "Não faltava dinheiro no Atlético, mas ele priorizou só gastar com o time de futebol. O plano dos Menin não deu certo, e agora eles buscam resolver a dívida primeiro antes de tentar crescer o clube. A dívida bancária estava em 600 milhões e caiu para em torno de 100 milhões. Para você ver como é complicado a gestão de futebol."
É difícil para o dirigente dizer à torcida que o clube vai apertar as contas?
Rodrigo Capelo: "Eles dizem para mim e para o Rodrigo, nos bastidores, que a realidade é essa, mas não podem sequer falar nesses temas, porque as pessoas não vão entender. A gente não está preocupado com o valor da dívida, da receita ou do lucro. A gente está preocupado com o time ser competitivo de maneira consistente. Só o Flamengo e o Palmeiras conseguem fazer isso hoje no cenário de topo do futebol brasileiro."
Onde está o maior problema entre os clubes?
Rodrigo Capelo: "Está nos clubes que estão na faixa intermediária, em termos financeiros, mas que acham que deveriam competir com os que estão no topo. Fluminense, Santos, Vasco, Grêmio e Inter estão se endividando perigosamente, porque arrecadam menos e têm menos condição de investir, mas gastam achando que têm que acompanhar o passo do Flamengo e do Palmeiras. E é por isso que eles vão quebrar."
Como criar uma cultura de responsabilidade financeira entre os torcedores?
Rodrigo Mattos: "Você tem que criar uma cultura no torcedor, que se criou no Palmeiras e no Flamengo, porque se demonstrou o valor de organizar a casa e criar uma austeridade. Nesses dois clubes, quando há déficit no fim do ano, existe cobrança da torcida e dos conselheiros. Essa cultura pode ser criada em todos os clubes, porque nenhuma torcida é especial e diferente."
Há alguma forma de punir o dirigente que deixa dívida para o sucessor?
Rodrigo Mattos: "Eu acho que começou um pouco. O dirigente do São Paulo está sob investigação, e o do Corinthians sofreu impeachment. Quando o fair play estiver completamente em vigor, vai ter também a possibilidade de punição esportiva. Está se criando esse tipo de consciência, não de uma hora para outra, mas há um caminho sendo trilhado."
Por que clubes pedem mais prazo para o fair play financeiro?
Rodrigo Capelo: "O fair play financeiro tem entre as regras que os clubes, a partir de 1º de janeiro de 2026, não poderiam contrair dívidas novas. De janeiro até novembro eles têm prazo para resolver as dívidas anteriores. Eles fizeram as contas e perceberam que não têm como chegar a dezembro desse ano com essa regra cumprida. Então já estão pedindo mais prazo à CBF."
A SAF resolve o problema da gestão de curto prazo dos clubes?
Rodrigo Capelo: "A gente achou durante muito tempo que a SAF resolveria esse tipo de problema. O que a gente viu é que mesmo as SAFs não têm esse olhar de longo prazo. O John Textor não teve olhar de longo prazo para o Botafogo, a 777 não teve para o Vasco. Internamente, o que tem que se discutir é reforma no estatuto, responsabilização de dirigentes, governança. Essa é uma pergunta que ainda não tem uma resposta ideal."
Como funciona a recuperação judicial de um clube?
Rodrigo Capelo: "É basicamente uma suspensão das dívidas. Quando a Justiça homologa, todas as cobranças ficam suspensas por seis meses, e o clube negocia com todos os credores ao mesmo tempo, exceto o governo. As propostas geralmente são pagar com desconto de 80% ao longo dos próximos 10 anos. Se os credores aceitam, a dívida baixa bastante e o clube passa a ter um prazo para pagar."
A restrição a clubes em recuperação judicial é suficiente?
Rodrigo Mattos: "Só acho que a restrição que está posta hoje deveria ser mais dura, porque a recuperação judicial dá uma vantagem tão grande para o clube que entra. O que a gente vê no exemplo lá fora é quem entra em recuperação perder pontos, eventualmente ser rebaixado. Essa contrapartida está muito pequena."
Qual a importância do fair play financeiro e da agência reguladora?
Rodrigo Capelo: "Ela é absolutamente importante. É ter regulamento, limitações para dívida, para custo de jogador, para contratação, para não ter dívidas em atraso. Quando um clube endividado se multiplica, a gente cria efeitos em cascata: o Santos deve ao Cuiabá e diz que não paga porque não recebe de outros clubes. O único jeito de arrumar isso no médio e longo prazo é tendo uma autorregulação."
Como você vê o futebol brasileiro daqui a cinco anos em gestão, dívidas e receitas?
Rodrigo Capelo: "O futebol de 2026 é melhor do que era em 2015, que era melhor do que era em 2005. Daqui a cinco anos a gente vai estar numa posição melhor, especialmente se as medidas de reestruturação, como profissionalização da arbitragem, mudança de calendário e fair play financeiro, forem bem aplicadas e reguladas. Não quer dizer que não vai ter um monte de absurdos no meio do caminho. Vai exigir vigilância da nossa parte."
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